Discutindo migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico de técnicos argentinos de futebol na América do Sul *
Debate sobre la migración laboral calificada, el soft power y el capital simbólico de los entrenadores de fútbol argentinos en Sudamérica
Discussing Skilled Labor Migration, Soft Power, and the Symbolic Capital of Argentine Football Coaches in South America
Guilherme Silva Pires de Freitas
, Marco Antônio Bettine de Almeida
Discutindo migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico de técnicos argentinos de futebol na América do Sul *
Papel Político, vol. 31, 2026
Pontificia Universidad Javeriana
Guilherme Silva Pires de Freitas a guilhermespfreitas@alumni.usp.br
Universidade de São Paulo , Brasil
Marco Antônio Bettine de Almeida
Universidade de São Paulo, Brasil
Recepção: 05 Dezembro 2025
Aprovação: 19 Abril 2026
Publicação: 25 Agosto 2026
Resumo: O artigo analisa a interseção entre migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico por meio da atuação de treinadores argentinos de futebol em seleções estrangeiras, especialmente na América do Sul, considerando também sua presença histórica nas Copas do Mundo FIFA de futebol masculino. Argumenta-se que a mobilidade internacional desses profissionais, marcada por alta competência técnica, formação cultural diversificada, histórico de êxitos e reconhecimento social, ultrapassa os limites esportivos e econômicos, configurando-se como um mecanismo indireto de influência simbólica e projeção internacional da Argentina. A pesquisa adota abordagem qualitativa, fundamentada em revisão interdisciplinar da literatura sobre migrações, sociologia do esporte e relações internacionais, complementada por análises de conteúdo midiático. Os resultados indicam que os treinadores argentinos operam como agentes não estatais de soft power, ao reforçar a imagem do país como exportador de expertise esportiva, enquanto utilizam o capital simbólico acumulado para ampliar sua valorização e autoridade no cenário global.
Palavras-chave:Argentina, técnicos de futebol, capital simbólico, soft power , migração laboral.
Resumen: Este artículo analiza la intersección entre la migración laboral calificada, el soft power y el capital simbólico a través de las acciones de los entrenadores de fútbol argentinos en selecciones nacionales extranjeras, especialmente en Sudamérica, considerando también su presencia histórica en las Copas del Mundo de la FIFA de fútbol masculino. Argumenta que la movilidad internacional de estos profesionales, caracterizada por una alta competencia técnica, diversos orígenes culturales, una trayectoria de éxito y reconocimiento social, trasciende las fronteras deportivas y económicas, configurándose como un mecanismo indirecto de influencia simbólica y proyección internacional para Argentina. La investigación adopta un enfoque cualitativo, basado en una revisión bibliográfica interdisciplinaria sobre migración, sociología del deporte y relaciones internacionales, complementada con un análisis de contenido mediático. Los resultados indican que los entrenadores argentinos operan como agentes no estatales de soft power, reforzando la imagen del país como exportador de experiencia deportiva, a la vez que utilizan el capital simbólico acumulado para realzar su valor y autoridad a nivel global.
Palabras clave: Argentina, entrenadores de fútbol, capital simbólico, soft power , migración laboral.
Abstract: This article analyzes the intersection between skilled labor migration, soft power, and symbolic capital through the actions of Argentine football coaches in foreign national teams, especially in South America, also considering their historical presence in the FIFA Men’s World Cups. It argues that the international mobility of these professionals, marked by high technical competence, diverse cultural backgrounds, a history of success, and social recognition, transcends sporting and economic boundaries, configuring itself as an indirect mechanism of symbolic influence and international projection for Argentina. The research adopts a qualitative approach, based on an interdisciplinary literature review on migration, sociology of sport, and international relations, complemented by media content analysis. The results indicate that Argentine coaches operate as non-state agents of soft power, reinforcing the country’s image as an exporter of sporting expertise, while using accumulated symbolic capital to enhance their value and authority on the global stage.
Keywords: Argentina, football coaches, symbolic capital, soft power, labor migration.
Introdução
Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026 será realizada a 23ª edição da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino. Pela primeira vez, a competição ocorrerá simultaneamente em três países-sede (México, Canadá e Estados Unidos) e reunirá 48 seleções, número inédito na história do torneio. Seis seleções sul-americanas classificaram-se para o evento: Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai. Excetuando-se o Brasil, todas serão comandadas por treinadores argentinos.
Lionel Scaloni, campeão mundial em 2022, permanecerá à frente da seleção argentina; Marcelo Bielsa disputará sua terceira Copa do Mundo, agora dirigindo o Uruguai; Néstor Lorenzo comandará a Colômbia; Sebastián Beccacece será o responsável pela seleção equatoriana; e Gustavo Alfaro, pela equipe paraguaia. Além deles, os Estados Unidos, um dos anfitriões, também serão liderados por um treinador argentino, Mauricio Pochettino. Assim, pelo terceiro Mundial consecutivo, a Argentina será o país com o maior número de treinadores no comando de seleções nacionais, repetindo o cenário observado na Rússia em 2018 e no Catar em 2022.
A presença expressiva de treinadores argentinos em seleções estrangeiras e em clubes de diferentes continentes tem sido observada há décadas, embora ainda receba atenção limitada na literatura acadêmica. A elevada qualificação desses profissionais também se manifesta no ambiente de clubes sul-americanos e europeus. Exemplos emblemáticos incluem a longa trajetória de Diego Simeone no Atlético de Madrid, desde 2011, a permanência de mais de quatro anos de Juan Pablo Vojvoda na equipe brasileira do Fortaleza, e o período de seis temporadas de Mauricio Pochettino no Tottenham, na Premier League inglesa, ilustrando a consolidação internacional e o reconhecimento técnico desses treinadores.
Considerados profissionais altamente competentes e detentores de significativo capital simbólico (Bourdieu, 1989), esses treinadores circulam globalmente e se enquadram na definição de trabalhadores migrantes altamente qualificados proposta por Weinar e Koppenfels (2020). Constituem recursos humanos valorizados e disputados por instituições esportivas dispostas a remunerar de forma significativa sua expertise. Da mesma forma que ocorre com jogadores argentinos de renome internacional, os treinadores converteram-se em investimentos estratégicos para clubes e federações, sobretudo na América do Sul, região em que sua presença remonta ao início do século XX (Alabarces, 2018).
A migração destes profissionais configura, portanto, um caso exemplar de mobilidade laboral altamente qualificada. Ao mesmo tempo, pode ser interpretada como um mecanismo de soft power: ao reforçar seu capital simbólico e legitimar sua autoridade esportiva, tais treinadores contribuem para a difusão, valorização e reafirmação da tradição futebolística argentina, especialmente nas edições recentes da Copa do Mundo.
Apesar da recorrente presença destes profissionais no cenário internacional, a literatura ainda carece de análises que articulem esse fenômeno às dinâmicas da migração laboral qualificada e à produção de soft power no esporte. Diante dessa lacuna, este artigo se propõe a compreender como a atuação internacional destes sujeitos pode ser entendida como um caso de migração laboral altamente qualificada e, simultaneamente, um mecanismo de produção de soft power. Parte-se da hipótese de que a circulação global desses treinadores não reflete somente sua inserção como trabalhadores altamente qualificados em mercados transnacionais, mas também opera como um vetor de produção e difusão de capital simbólico, contribuindo para a projeção internacional da Argentina no campo esportivo.
Diante desse contexto, o presente artigo tem por objetivo articular os conceitos de migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico a partir da atuação de treinadores argentinos de futebol. O estudo organiza-se em cinco seções. Após esta introdução, apresentam-se os procedimentos metodológicos adotados. Em seguida, discute-se a presença histórica de treinadores argentinos no comando de seleções ao longo das Copas do Mundo. A terceira seção analisa os fundamentos teóricos da migração laboral qualificada; a quarta aborda o conceito de soft power. Posteriormente, esses referenciais são articulados à análise da atuação internacional dos treinadores argentinos, destacando o capital simbólico que acumulam. Por fim, são apresentadas as considerações finais.
Procedimentos metodológicos
Esta pesquisa foi conduzida a partir de uma abordagem qualitativa, articulando revisão de literatura, análise de conteúdos midiáticos e um procedimento de análise interpretativa voltado à compreensão das dimensões simbólicas, discursivas e culturais associadas à atuação de treinadores argentinos no cenário internacional. A investigação combina fundamentos da sociologia do esporte, dos estudos sobre migração laboral qualificada e das teorias do soft power, compondo um percurso metodológico de caráter interdisciplinar.
O conceito de análise interpretativa aqui adotado apoia-se na tradição hermenêutica das Ciências Sociais, a qual entende que fenômenos socioculturais só podem ser compreendidos pela interpretação dos sentidos que os sujeitos produzem. Nesse sentido, incorporamos a perspectiva de Clifford Geertz (1978), para quem “fazer antropologia é fazer interpretações; é, mais precisamente, tentar ler o que nunca foi escrito” (p. 20). Aplicada ao universo esportivo, essa abordagem permite analisar não apenas fatos e trajetórias, mas também os significados culturalmente atribuídos à figura do treinador argentino, reconstruindo de que maneira atributos tais como competência, bravura tática, disciplina e liderança se configuram simbolicamente.
A análise interpretativa dialoga também com o horizonte metodológico de Paul Ricœur (1990), especialmente sua concepção de que “o sentido não está dado; ele deve ser conquistado” (p. 23). Assim, o método busca desvendar as camadas de significação que atravessam discursos midiáticos, declarações de dirigentes, narrativas históricas e textos acadêmicos que consolidam o prestígio internacional dos treinadores argentinos como migrantes altamente qualificados.
Inspirada na hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer (1997), a pesquisa adota o princípio segundo o qual compreender é sempre “fusão de horizontes” (p. 306). Neste estudo, essa fusão ocorre entre o horizonte dos textos, matérias esportivas, entrevistas, reportagens, documentos históricos e o horizonte teórico que orienta a leitura (migração qualificada, soft power e capital simbólico). O resultado é a construção de um quadro interpretativo capaz de articular o plano empírico às estruturas simbólicas que sustentam a valorização dos treinadores argentinos.
No campo dos estudos críticos do discurso, mobilizamos também a contribuição de Norman Fairclough (1992), para quem “a linguagem é uma forma de prática social” (p. 63). Esse pressuposto orienta a análise das narrativas midiáticas que, ao comentar o desempenho dos treinadores argentinos, produzem e reproduzem valores, hierarquias e representações que reforçam seu capital simbólico no cenário global.
A partir dessas bases hermenêuticas e discursivas, procedeu-se à análise de materiais teóricos provenientes de autores reconhecidos internacionalmente, bem como à coleta de dados em veículos de comunicação de acesso público (jornais, portais especializados, entrevistas, documentários e reportagens televisivas). Essa triangulação analítica possibilitou identificar narrativas que historicamente associam treinadores argentinos à competência técnica, à formação multicultural e ao prestígio simbólico, elementos centrais na construção de sua imagem como profissionais altamente qualificados.
A hermenêutica aplicada concentrou-se em interpretar como esses discursos, midiáticos e acadêmicos, produzem sentidos que ultrapassam o âmbito esportivo e contribuem para a constituição de um soft power argentino, ainda que não institucionalizado pelo Estado. Especial atenção foi dedicada aos modos pelos quais certos treinadores se tornam vetores de projeção internacional, acumulando capital simbólico e reforçando imaginários positivos associados ao futebol argentino.
A discussão teórica fundamentou-se nos trabalhos de Alabarces (2008), para contextualização histórica do futebol argentino; de Salt (1997) e Weinar e Koppenfels (2020), no campo da migração qualificada; de Nye (1990, 2004, 2011) no debate sobre soft power; e de Bourdieu (1989) no tocante ao capital simbólico e às dinâmicas de reconhecimento no universo do esporte. A análise interpretativa do material midiático concentrou-se em reconstruir sentidos e identificar padrões discursivos sobre a circulação internacional desses treinadores, observando como a mídia legitima sua autoridade técnica, reforça expectativas de desempenho e consolida imaginários que sustentam seu prestígio global.
Como toda pesquisa qualitativa baseada em hermenêutica e análise interpretativa, este estudo apresenta limitações inerentes ao tipo de corpus mobilizado e à natureza discursiva dos dados. A seleção de materiais midiáticos não esgota o espectro de representações possíveis, podendo privilegiar veículos com maior alcance e visibilidade. Procurou-se seguir critérios qualitativos orientados pela relevância, alcance e diversidade das fontes, priorizando veículos de ampla circulação nacional e internacional, bem como portais especializados em esporte, entrevistas com treinadores e dirigentes, e conteúdos audiovisuais. Inclusive, a escolha do corpus considerou a recorrência de narrativas que associam treinadores argentinos a atributos como competência técnica, liderança e prestígio internacional, possibilitando identificar padrões discursivos consistentes.
Além disso, a interpretação dos textos, embora sustentada por referenciais teóricos robustos, envolve um grau inevitável de subjetividade, dependente do horizonte cultural e analítico do pesquisador. Ademais, a ausência de entrevistas próprias ou observações etnográficas limita o aprofundamento empírico sobre a experiência direta dos treinadores. Tais limitações, contudo, não comprometem o alcance da investigação, mas indicam caminhos para estudos futuros que possam ampliar a triangulação metodológica e diversificar as fontes empíricas.
Treinadores de futebol argentinos ao longo da história e das Copas do Mundo
O futebol masculino da Argentina figura entre os mais vitoriosos da história da modalidade, acumulando três títulos mundiais e 16 conquistas da Copa América, principal competição sul-americana de seleções. No âmbito das Copas do Mundo, além do tricampeonato e da projeção de figuras icônicas como Diego Armando Maradona e Lionel Messi, o país destacou-se também como formador de treinadores que atuaram em seleções estrangeiras. Até a edição de 2022, realizada no Catar, doze profissionais argentinos comandaram equipes nacionais de outros países ao longo da história do torneio.
A presença de treinadores argentinos no comando de seleções estrangeiras remonta à primeira edição da Copa do Mundo de futebol masculino. Em 1930, José Durand Laguna dirigiu a seleção paraguaia em duas partidas — uma vitória por 1 a 0 sobre a Bélgica e uma derrota por 3 a 0 diante dos Estados Unidos. Segundo o jornal ABC Color, Laguna é considerado um dos grandes treinadores da história do futebol paraguaio, reconhecido como precursor da escola local e figura central na consolidação de uma característica própria, influenciando “técnicos que consolidaram a identidade futebolística e, portanto, o estilo de jogo do nosso futebol” (“Los maestros de la identidad”, 2006).
Além do Paraguai, a Colômbia também recebeu forte influência de um profissional argentino. Fernando Paternoster chegou ao país em 1938 para treinar o Club Deportivo Municipal, atual Millonarios (Mora, 2024). Em mais de duas décadas de atuação, passou por diversos clubes e dirigiu a seleção nacional, difundindo métodos esportivos e contribuindo para a formação do estilo de jogo colombiano, influência que, segundo Alabarces (2008), os ingleses não lograram exercer no momento inicial da introdução da modalidade no país. Como descreve Arenas (2022):
Embora tenha promovido um estilo de jogo ofensivo e uma busca constante por novos espaços, ele também incutiu alguns conceitos defensivos […] Mais tarde, levou essas ideias para o Atlético Nacional e deu ao clube sua primeira estrela em 1954 […]. Essa era marcou a história do futebol colombiano e moldou várias de suas formas de compreender o esporte mais popular do mundo. (Tradução dos autores)
Paternoster tornou-se, assim, o pioneiro de uma longa tradição de treinadores argentinos no futebol colombiano. Sua atuação abriu caminho para outros profissionais, como Carlos Roberto Aldabe, Adolfo Pedernera, Osvaldo Juan Zubeldía e Carlos Bilardo, responsáveis por disseminar tendências do futebol argentino no país (Arenas, 2022). Pedernera comandou a seleção colombiana na Copa do Mundo de 1962, enquanto seu compatriota Helenio Herrera assumiu a seleção espanhola na mesma edição. Após um hiato de 32 anos, Jorge Solari treinou a seleção da Arábia Saudita na Copa do Mundo de 1994, conduzindo-a às oitavas de final em sua estreia no torneio, o primeiro caso de um argentino no comando de uma equipe asiática em um Mundial.
Esse movimento marcou mais um avanço no processo de exportação de expertise técnica e de inserção dos profissionais argentinos em novos mercados. Entre as décadas de 1970 e 1980, entretanto, eram os treinadores brasileiros considerados mais valorizados no Oriente Médio. Técnicos como Rubens Minelli e Mário Jorge Lobo Zagallo figuraram entre os primeiros a aceitar propostas financeiramente vantajosas na região (Coelho, 2009), contribuindo para a constituição de um soft power brasileiro associado à imagem do treinador vitorioso (Biazzi & Neto, 2007). A ascensão dos argentinos nos anos posteriores reposicionou essas dinâmicas regionais.
Após o ciclo de êxitos do futebol argentino entre 1978 e 1986, período em que a seleção conquistou dois Mundiais, os treinadores do país passaram a ser percebidos pelo mercado europeu como quadros altamente qualificados. César Luis Menotti e Carlos Bilardo, responsáveis pelos títulos de 1978 e 1986, atuaram no futebol europeu, enquanto Héctor Cúper e Jorge Valdano alcançaram destaque dirigindo clubes como Internazionale de Milão, Valencia e Real Madrid. Esses deslocamentos consolidaram o estatuto do treinador argentino como profissional competente, detentor de resultados expressivos e cuja migração passou a ser vista como investimento estratégico.
É, contudo, no século XXI que os técnicos argentinos consolidam de forma definitiva sua posição no cenário internacional como trabalhadores altamente qualificados. A partir da Copa do Mundo de 2006, profissionais do país marcam presença em todas as edições posteriores, assumindo o comando de seleções estrangeiras e ampliando ainda mais seu capital simbólico. Em 2006, Ricardo La Volpe dirigiu a seleção mexicana. No Mundial de 2010, pela primeira vez, os argentinos foram maioria entre os treinadores de seleções: além de Maradona na equipe nacional, Marcelo Bielsa comandou o Chile e Gerardo Martino o Paraguai. Em 2014, José Pékerman esteve à frente da Colômbia, e Jorge Sampaoli dirigiu o Chile.
Uma nova fronteira foi transposta em 2018, quando Héctor Cúper tornou-se o primeiro argentino a comandar uma seleção africana, a do Egito. Após mais de uma década no futebol europeu, Cúper buscou novos desafios na Ásia e em África, contribuindo para a abertura de mercados pouco explorados por treinadores argentinos. Em janeiro de 2024, como técnico da seleção da Síria, classificou o país pela primeira vez para a fase final da Copa da Ásia, feito que teve forte impacto simbólico, evidenciado na comoção de um jornalista sírio que chorou ao vivo ao agradecer o treinador (“Héctor Cúper hace historia”, 2024).
Além de Cúper, outros profissionais argentinos voltaram a comandar seleções sul-americanas no Mundial de 2018. Pékerman manteve-se à frente da Colômbia, enquanto Ricardo Gareca levou o Peru à Copa após 36 anos de ausência, tornando-se figura amplamente admirada no país, segundo a América TV, com índice de aprovação nacional de 97% (“Perú en Rusia 2018”, 2017). Neste mesmo Mundial, Juan Antonio Pizzi foi o técnico da Arábia Saudita. Embora nascido em Santa Fé, Argentina, o treinador desenvolveu grande parte de sua carreira profissional na Espanha, país pelo qual se naturalizou na década de 1990 e que representou na Copa do Mundo de 1998. Em virtude desta mudança de nacionalidade esportiva, esta pesquisa optou por não o incluir no estudo.
O reconhecimento social adquirido por estes profissionais não se limita aos resultados alcançados, mas envolve também a forma como esses desempenhos são percebidos e avaliados pela sociedade e pelos diversos atores envolvidos na modalidade, incluindo jornalistas, dirigentes, torcedores e outros treinadores. Em entrevista concedida ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, em 25 de outubro de 2020, o coordenador da Associação dos Treinadores de Futebol Argentino, Leo Samaja, ressaltou o diferencial cultural dos técnicos argentinos ao afirmar que:
Eu acho que a confiança depositada em nós (argentinos), por uma questão muito prática, é porque nós temos uma formação multicultural. A gente vai além das fronteiras. A formação que eu digo não é só dentro do curso de treinadores, mas a formação integral, com o ensino fundamental, o ensino médio. Temos uma base muito forte, muito exigente, muito complexa, muito difícil. Então isso vai transformando o profissional, seja qual for a sua decisão futura. (“Por que técnico argentino”, 2020)
A declaração de Samaja evidencia e reforça o capital cultural dos treinadores argentinos. Esse diferencial, em relação a outros profissionais, revela-se especialmente no aspecto educacional, destacando-se a chamada “formação multicultural”, que valoriza o conhecimento e a instrução do treinador enquanto cidadão. Trata-se de um exemplo de como o capital simbólico desses profissionais é reconhecido e legitimado pela sociedade.
Na Copa do Mundo mais recente, que consagrou a Argentina de Lionel Messi e Lionel Scaloni, outros dois técnicos argentinos estiveram à frente de seleções estrangeiras: Gustavo Alfaro (Equador) e Gerardo Martino (México). O êxito desses profissionais, em diferentes contextos nacionais, evidencia atributos característicos da migração laboral altamente qualificada, tais como capacidade de inovação, competência em gestão, adaptação intercultural e aptidão para a transferência internacional de conhecimento, aspectos que serão aprofundados na seção seguinte.
A sistematização sobre o histórico dos técnicos argentinos atuando à frente de seleções estrangeiras em Copas do Mundo, pode ser observada na tabela 1.

Embora a presença internacional de treinadores estrangeiros não constitua uma especificidade argentina, como evidenciam os casos de técnicos brasileiros, italianos e alemães que, ao longo das Copas do Mundo, dirigiram diferentes seleções nacionais, a regularidade temporal e a amplitude geográfica da inserção destes profissionais conferem a esse fenômeno um caráter distintivo. Ademais, o desempenho esportivo das equipes emerge como um diferencial relevante, uma vez que as melhores campanhas de Colômbia, Paraguai e Arábia Saudita em Mundiais ocorreram sob o comando de treinadores argentinos. Soma-se a isso a capacidade desses profissionais de reposicionar e resgatar internacionalmente a reputação de determinadas seleções, casos de Peru e Egito, que retornaram à Copa do Mundo após 36 e 28 anos de ausência, respectivamente.
O conceito de migração laboral qualificada
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estimou que, ao final de 2020, a população migrante global totalizava aproximadamente 281 milhões de indivíduos, dos quais cerca de 169 milhões eram trabalhadores migrantes (International Organization for Migration, 2024). Esse cenário numérico, entretanto, diz pouco sobre a diferenciação interna dos fluxos, em especial sobre o segmento dos trabalhadores altamente qualificados, muitas vezes descritos como “migrantes desejados” (Sumption, 2025). A dificuldade de quantificar esse grupo decorre justamente do fato de que a migração qualificada se estrutura em múltiplos circuitos profissionais, disciplinarmente definidos e politicamente mediados.
Salt (1997) define trabalhadores altamente qualificados como aqueles que se deslocam internacionalmente para ocupar posições profissionais, técnicas ou gerenciais que exigem habilidades avançadas e elevado grau de especialização. No entanto, a literatura especializada mostra que não existe um consenso estável sobre o que constitui “alta qualificação”. Como sublinham Weinar e Koppenfels (2020), economistas, sociólogos e formuladores de políticas utilizam critérios distintos, o que torna o conceito um campo de disputa: a migração qualificada não é apenas um fenômeno empírico, mas também um constructo normativo, ligado a regimes de valorização e hierarquização do trabalho.
A esse respeito, Saskia Sassen (2001, 2010) contribui ao mostrar que a globalização contemporânea reorganiza os fluxos de trabalho em torno de circuitos transnacionais de alta e baixa qualificação, simultaneamente complementares e desiguais. Nas chamadas “cidades globais”, observa-se a concentração de serviços financeiros, jurídicos, esportivos e de gestão que demandam especialistas de elite, ao mesmo tempo em que se intensifica a presença de trabalhadores precarizados em atividades de suporte, manutenção e cuidado. Nesse quadro, a migração qualificada compõe o núcleo de uma economia transnacional que seleciona, atrai e circula determinados perfis de profissionais, enquanto expulsa ou invisibiliza outros.
Manuel Castells (1999) acrescenta a esse diagnóstico a noção de “sociedade em rede”, na qual os fluxos de capital, informação e trabalho se articulam em redes globais de decisão. A migração qualificada, nessa perspectiva, pode ser entendida como parte de uma arquitetura em que determinados indivíduos tornam-se “nós” estratégicos, conectando clubes, federações, empresas e centros de expertise. Treinadores de futebol que circulam entre ligas europeias, sul-americanas e asiáticas exemplificam essa lógica: ocupam posições nodais de comunicação, gestão e coordenação, mobilizando tanto conhecimento técnico quanto capital simbólico para mediar diferentes contextos.
Zygmunt Bauman (1999, 2001), por sua vez, enfatiza a dimensão assimétrica da mobilidade. Em um mundo marcado pela “modernidade líquida”, a liberdade de movimento é distribuída de forma desigual: alguns atores desfrutam de mobilidade quase ilimitada, enquanto outros são restringidos por fronteiras, burocracias e precariedade. A categoria dos “migrantes altamente qualificados” tende a se aproximar do primeiro grupo, usufruindo de vistos especiais, contratos vantajosos e reconhecimento institucional. No entanto, essa mobilidade privilegiada está permanentemente condicionada a critérios de desempenho, produtividade e adequação cultural, o que também introduz formas específicas de vulnerabilidade e pressão.
Tradicionalmente, pesquisas sobre migração qualificada associam esses fluxos à posse de formação universitária. Contudo, categorias como atletas, artistas e treinadores esportivos mostram que a alta qualificação pode se fundamentar menos em diplomas formais e mais em trajetórias, reputações e habilidades corporais e cognitivas socialmente reconhecidas. Nesses casos, a “habilidade” é uma categoria relacional, construída nas interações entre mercado, mídia, instituições e políticas migratórias (Salt, 1997; Weinar & Koppenfels, 2020). A concessão de vistos, licenças e credenciais torna-se, assim, um mecanismo por meio do qual Estados e organismos reguladores definem quem é, ou não, considerado “qualificado”.
O papel do Estado é central nesse processo. Weinar e Koppenfels (2020) mostram que a migração qualificada é fortemente moldada por programas específicos de atração de talentos, critérios de escassez ocupacional e acordos bilaterais. Kreimer (2024) destaca que o reconhecimento de diplomas, a regulação profissional e os mecanismos de certificação funcionam como filtros que podem tanto facilitar quanto bloquear a entrada de estrangeiros em determinados campos. Em outras palavras, a alta qualificação não é apenas um atributo individual, mas o resultado de um processo institucional de reconhecimento, que envolve Estados, conselhos profissionais, federações e organizações internacionais.
Seguindo Sayad (1998), mesmo o migrante altamente qualificado continua sendo, antes de tudo, um migrante, isto é, alguém cuja permanência está condicionada à autorização estatal e à utilidade econômica reconhecida. O que distingue esse grupo de trabalhadores das migrações de “mão de obra barata” é o capital simbólico que carregam: um conjunto de credenciais, reputações e expectativas que os torna valiosos em mercados competitivos. Atraí-los significa, para Estados, clubes e empresas, adquirir não apenas força de trabalho, mas também prestígio, visibilidade e acesso a redes internacionais.
O debate contemporâneo sobre migração qualificada evidencia ainda as assimetrias de gênero, raça e origem nacional. Weinar e Koppenfels (2020) e a própria OIM (2024) mostram que os canais de migração altamente qualificada se concentram em áreas nas quais os homens são sobrerrepresentados, como ciência, tecnologia, engenharia, finanças e gestão, e, poderíamos acrescentar, a alta performance esportiva. Já ocupações qualificadas majoritariamente femininas, como saúde e educação, são frequentemente enquadradas em regimes regulatórios mais rígidos, nos quais as qualificações internacionais não são automaticamente reconhecidas, resultando em trajetórias de desqualificação e mobilidade descendente.
O campo dos treinadores de seleções nacionais de futebol constitui um exemplo eloquente dessa desigualdade. Trata-se de um espaço fortemente masculinizado, inclusive no futebol feminino. Na Copa do Mundo de 2023, apenas 12 das 32 seleções foram dirigidas por mulheres (Noronha, 2023), o que revela que, mesmo num segmento da migração qualificada, a distribuição de oportunidades segue padrões patriarcais.
À luz desse quadro, o caso dos treinadores argentinos de futebol pode ser interpretado como um subconjunto específico da migração laboral qualificada: trata-se de profissionais inseridos em redes globais de clubes e seleções, detentores de capital simbólico elevado e cuja mobilidade internacional está vinculada tanto ao reconhecimento de suas habilidades quanto à capacidade de projetar prestígio e reputação para além das fronteiras nacionais. O legado histórico, a centralidade do futebol na cultura argentina e a circulação transnacional de conhecimento técnico contribuem para consolidar esses treinadores como agentes altamente qualificados e amplamente desejados, reforçando ao mesmo tempo a projeção internacional do país e a construção de um soft power esportivo que será discutido nas seções seguintes (Tabela 2).

O conceito de soft power
O conceito de soft power emergiu no final da década de 1970 no interior do debate sobre interdependência complexa formulado por Nye e Keohane, e foi posteriormente desenvolvido por Nye em três obras fundamentais: Bound to Lead (1990), Soft Power (2004) e The Future of Power (2011). Nesses trabalhos, Nye define o soft power como a capacidade de um ator político, tradicionalmente um Estado, de influenciar o comportamento de outros por meio da atração, e não da coerção militar ou de incentivos econômicos. Trata-se de um poder que opera no plano simbólico: seus fundamentos são percepção, legitimidade e desejo de aproximação.
Para Nye (2004), as fontes do soft power organizam-se em três campos: cultura, valores políticos e política externa legitimada. Quanto mais um país é visto como culturalmente admirável, politicamente confiável e internacionalmente consistente, maior sua capacidade de seduzir, moldar expectativas e gerar identificação. Contudo, em The Future of Power (2011), Nye amplia o conceito, observando que o soft power não é monopólio estatal: corporações, organizações internacionais, atletas, artistas e especialistas também podem atuar como micro-vetores de influência, convertendo prestígio, carisma e expertise em recursos de atração.
Uma leitura crítica do conceito de soft power, formulado por Nye, pode ser aprofundada à luz da teoria da hegemonia de Antonio Gramsci (1999), entendida como um processo pelo qual um grupo social exerce direção sobre outros por meio da combinação entre coerção e consenso, ancorado na liderança ético-política e na atuação na sociedade civil e no Estado ampliado. Nessa perspectiva, autores como Leite Júnior e Rodrigues (2024) interpretam o soft power não apenas como recurso de atração, mas como um mecanismo de produção de consenso que contribui para a reprodução de hierarquias no sistema internacional.
Enquanto Nye enfatiza a capacidade de influenciar outros por meio da atração cultural, de valores e de instituições, Gramsci desloca o foco para as condições estruturais e históricas que tornam essa “atração” possível, compreendendo-a como parte de um projeto hegemônico, no qual a direção ético-política exercida na sociedade civil é central para a consolidação do poder e naturalização de hierarquias (Gramsci, 1999).
Simon Anholt contribui a esse debate ao formular o conceito de nation branding, enfatizando que reputações nacionais são produtos híbridos construídos pela interação entre políticas públicas, mídia, indivíduos proeminentes e fluxos culturais transnacionais. Para Anholt (2007), nações competem por atenção, confiança e preferência, bens intangíveis cuja construção depende tanto de estratégias estatais quanto de símbolos culturais que circulam globalmente.
É nesse ponto que os aportes de Arjun Appadurai se tornam essenciais. Em Modernity at Large (1996), Appadurai propõe a noção de mediascapes: fluxos transnacionais de imagens, narrativas e representações que moldam imaginários coletivos. O soft power contemporâneo depende diretamente desses fluxos midiáticos, nos quais atletas, celebridades, artistas e treinadores circulam como signos globais, produzindo sentidos que transcendem fronteiras estatais. Não se trata apenas de diplomacia cultural, mas de uma ecologia comunicacional na qual a mídia confere visibilidade, legitimação e alcance internacional aos atores envolvidos.
A teoria do poder em rede, de Manuel Castells (2009), aprofunda essa dinâmica ao argumentar que a política contemporânea ocorre em um ambiente estruturalmente moldado por redes digitais e midiáticas. Nesse sistema, o poder deriva da capacidade de programar e conectar fluxos de informação. Celebridades esportivas, clubes globais, ligas internacionais e treinadores de grande reputação ocupam posições nodais nessas redes, exercendo influência que não se limita à esfera esportiva, mas atinge percepções sociais, diplomáticas e culturais. Assim, o soft power não é apenas um fenômeno político, mas também informacional e relacional.
No campo específico dos estudos do esporte, Giulianotti e Robertson (2007) introduzem os conceitos de glocalização esportiva e política global do esporte, demonstrando que o futebol opera como um sistema híbrido de influências locais e globais. O soft power esportivo emerge justamente dessa articulação: clubes, seleções e personalidades esportivas tornam-se mediadores culturais, produzindo valores que transitam entre o local e o global. Nesse sentido, a expertise de treinadores, a estética futebolística e a narrativa de sucesso nacional funcionam como elementos glocais que ampliam a atratividade de determinados países.
Quando associado ao esporte, o soft power se materializa de diferentes maneiras: megaeventos, campanhas midiáticas, programas de desenvolvimento esportivo, circulação transnacional de atletas e treinadores, patrocínios globais e ações diplomáticas informais. Estados autoritários e democráticos utilizam tais mecanismos, seja para fortalecer reputações, seja para reposicionar identidades nacionais (Grix & Lee, 2013; Grix et al., 2015). Em certos casos, essa dinâmica assume a forma do sportswashing, estratégia pela qual governos tentam reabilitar imagens negativas por meio da associação com o esporte (Bettine, 2023).
Todavia, como demonstram Abdi et al. (2019), não apenas Estados, mas também indivíduos podem exercer papéis de diplomatas simbólicos. Atletas como Yao Ming, Serena Williams e estrelas do futebol atuam como embaixadores culturais capazes de moldar percepções globais por meio de sua performance, personalidade e visibilidade midiática. Esses atores participam diretamente da produção de soft power, operando dentro do que Appadurai (1996) denomina mediascapes e Castells (2009) entende como redes globais de comunicação.
À luz desse quadro teórico ampliado, compreender o papel dos treinadores argentinos que atuam em seleções internacionais exige reconhecer que sua influência não decorre apenas de resultados esportivos, mas da circulação de conhecimento, reputações, estilos de jogo e capital simbólico. Mesmo na ausência de políticas estatais explícitas, esses treinadores tornam-se vetores de soft power ao projetar uma imagem de competência técnica, inovação tática e identidade futebolística associada à Argentina (Tabela 3).

À luz desse arcabouço teórico, torna-se evidente que o soft power não se restringe a iniciativas estatais formais, mas se materializa também por meio da circulação internacional de especialistas cuja reputação ultrapassa fronteiras. Nesse sentido, os treinadores argentinos de futebol constituem um caso exemplar: sua expertise técnica, seu capital simbólico acumulado e sua presença em seleções estrangeiras operam como mecanismos indiretos de projeção internacional da Argentina. É exatamente essa articulação, entre soft power, capital simbólico e atuação profissional, que será analisada na seção seguinte.
Relacionando migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico de técnicos argentinos
A mobilidade internacional dos treinadores argentinos de futebol pode ser interpretada não apenas como um fenômeno sociolaboral ou esportivo, mas como um processo cultural complexo, situado na interseção entre migração qualificada, reconhecimento simbólico e produção transnacional de sentidos. Para compreendê-lo em profundidade, é necessário deslocar a análise para o campo da interpretação hermenêutica, onde trajetórias profissionais, regimes de visibilidade midiática e reputações globais são entendidos como textos culturais que podem ser lidos, traduzidos e reinscritos em novos contextos históricos.
A circulação dos treinadores como texto cultural (Geertz)
Como ensina Geertz (1978), culturas são sistemas de significados que devem ser lidos como textos, e a tarefa da análise não é apenas descrever eventos, mas produzir uma descrição densa, capaz de captar as camadas de sentido que sustentam práticas, performances e instituições. Aplicado ao caso dos técnicos argentinos, isso significa que sua circulação global não pode ser reduzida a fluxos de trabalho, contratos ou resultados: ela deve ser compreendida como um efeito significativo produzido por narrativas, símbolos, ethos esportivos e imaginários coletivos.
Assim, quando um treinador argentino assume uma seleção nacional estrangeira, como Laguna no Paraguai (1930), Paternoster na Colômbia (década de 1930), Solari na Arábia Saudita (1994), Cúper no Egito (2018) ou Gareca no Peru (2018), esse movimento não representa apenas um deslocamento laboral. Trata-se da inscrição de um conjunto de significados associados ao “ser técnico argentino”: intensidade competitiva, formação multicultural, disciplina tática, historicidade vitoriosa. Tais elementos são lidos, avaliados e reinterpretados pelas sociedades receptoras, produzindo novos sentidos, exatamente como ocorre na interpretação de um texto.
A interpretação como mediação simbólica (Ricœur)
Paul Ricœur (1990) destaca que a interpretação é sempre uma mediação entre mundos: o mundo do texto e o mundo do intérprete. No caso dos treinadores, o “texto” é composto por suas biografias, pela história do futebol argentino, por entrevistas, performances técnicas e pela narrativa global que constitui sua identidade profissional. O “intérprete” é cada contexto nacional que os recebe.
Por isso, o reconhecimento do treinador argentino como “profissional altamente qualificado” não é apenas fruto de estatísticas ou resultados, mas da capacidade que esse texto cultural tem de propor um mundo possível, uma imagem de competência, legitimidade e credibilidade. A migração de treinadores é, assim, um processo no qual: o mundo do futebol argentino é projetado; o mundo das sociedades receptoras é reinterpretado; e um novo sentido emerge da relação entre ambos.
Ricœur chamaria isso de configuração narrativa, na qual a trajetória dos técnicos argentinos adquire coerência simbólica e se torna um reservatório de significados capazes de influenciar expectativas, políticas, decisões e imaginações nacionais sobre o futebol.
Fusão de horizontes e historicidade da compreensão (Gadamer)
A compreensão só ocorre quando há uma fusão de horizontes, isto é, quando diferentes tradições históricas interagem e se transformam mutuamente (Gadamer, 1997). O diálogo entre o horizonte do futebol argentino e o horizonte de cada contexto nacional cria interpretações situadas sobre quem são esses treinadores e por que são valorizados. Por exemplo: na Colômbia, técnicos argentinos foram interpretados como fundadores de uma escola nacional; no Paraguai, como precursores da identidade futebolística; no Peru, como salvadores históricos (97 % de aprovação a Gareca); na Síria, como figuras mitificadas pela mídia (caso de Cúper).
Essas leituras não são universais: são interpretações locais, derivadas da fusão entre tradições esportivas, expectativas nacionais e a historicidade própria do futebol de cada país. O capital simbólico do treinador argentino, portanto, não é estático; ele é continuamente reinterpretado, reforçado ou transformado em cada nova inserção profissional.
Capital simbólico e reconhecimento hermenêutico
A partir de Bourdieu (1989), o capital simbólico é o reconhecimento social legitimado como valor. Contudo, do ponto de vista hermenêutico, esse reconhecimento depende de processos interpretativos que tornam certas qualidades visíveis, desejáveis e legitimadas. Assim, quando Leo Samaja descreve a “formação multicultural” dos treinadores argentinos, ele não apenas informa uma característica: ele performata uma interpretação coletiva, reforçando uma narrativa legítima sobre quem esses profissionais são e por que merecem confiança.
Esse discurso não opera apenas em nível nacional: ele se insere em um espaço global midiático, o que nos aproxima de Appadurai (1996), para quem as culturas contemporâneas se reorganizam por meio de mediascapes que circulam imagens, entrevistas, reportagens, documentários e ídolos esportivos. É nesse campo imagético que o capital simbólico dos treinadores se estabiliza e se difunde, ampliando seu efeito internacional.
Migração qualificada, redes globais e soft power
Os treinadores argentinos operam em uma economia global de mobilidade profissional, descrita por Sassen (2001) como composta por elites do conhecimento, fluxos especializados e mercados altamente competitivos. Inseridos nessas redes, os treinadores tornam-se agentes estratégicos que circulam por clubes e seleções nacionais como portadores de saberes reconhecidos.
No plano das relações internacionais, essa circulação produz efeitos típicos do soft power (Nye, 1990, 2004, 2011), não porque esteja coordenada pelo Estado argentino, mas porque atrai admiração, produz identificação e reforça a legitimidade simbólica da Argentina. Técnicos argentinos tornam-se, assim, agentes não estatais de influência internacional, funcionando como vetores culturais que reforçam a imagem do país por meio de reputação, técnica e reconhecimento global.
Esse processo também pode ser descrito à luz de Castells (2009), para quem o poder é exercido por meio das redes de visibilidade e comunicação. Quanto maior é o capital simbólico de um treinador, maior é sua capacidade de se inserir em redes globais que amplificam sua reputação, e maior é o impacto desse reconhecimento na projeção internacional da Argentina.
A glocalização da autoridade técnica argentina
Giulianotti e Robertson (2007) ajudam a compreender essa dinâmica ao descrevem o esporte global como campo de glocalização, no qual práticas e identidades circulam, mas sempre se adaptam aos contextos locais. Os treinadores argentinos, ao se inserirem em diferentes países, traduzem sua metodologia, sua filosofia e sua identidade técnica para novos cenários, criando híbridos culturais que reforçam tanto o futebol local quanto a projeção internacional da “escola argentina”. Assim, a presença desses profissionais no exterior não é mero transplante de estilos: é um processo hermenêutico de tradução cultural, no qual o horizonte argentino e o horizonte local se fundem, criando novas versões do jogo e novas formas de reconhecimento.
Considerações finais
A análise desenvolvida ao longo deste estudo permite afirmar que a figura do treinador argentino de futebol se constitui como um agente profundamente investido de capital simbólico, cuja legitimidade decorre da interseção entre trajetória histórica, reconhecimento social, resultados esportivos e uma narrativa cultural que o consagrou internacionalmente como sinônimo de competência. Esse capital, tal como formulado por Bourdieu (1989), não se limita à performance esportiva: ele se sedimenta em estruturas interpretativas mais amplas, nas quais valores, disposições, estilos de jogo e ethos profissionais são continuamente lidos, traduzidos e legitimados por diferentes públicos ao redor do mundo.
Ao mobilizar referenciais da migração laboral qualificada, observou-se que os treinadores argentinos ocupam um espaço típico de elites profissionais transnacionais, circulando em redes de alta competitividade (Sassen, 2001) e inserindo-se em mercados cujos critérios de seleção privilegiam expertise, reputação e capacidade simbólica de liderança. Sua presença recorrente em seleções nacionais, especialmente na América do Sul, evidencia a capacidade desses sujeitos de ultrapassar barreiras impostas a trabalhadores migrantes de qualificação inferior, cujas trajetórias são frequentemente moldadas por legislações restritivas, precarização e hierarquias globais de mobilidade.
Nesse contexto, torna-se nítido que o impacto desses profissionais excede o âmbito estritamente esportivo. A partir da hermenêutica cultural de Geertz (1978), os treinadores argentinos podem ser compreendidos como textos sociais, cujas interpretações e ressignificações variam conforme o país receptor, produzindo sentidos distintos sobre profissionalismo, disciplina e identidade futebolística. Gadamer (1997) permite avançar nesse argumento ao demonstrar que cada experiência migratória envolve uma fusão de horizontes, na qual o estilo argentino encontra tradições locais, dando origem a novas sínteses culturais e modos particulares de compreensão do jogo. Por sua vez, Ricœur (1990) contribui ao evidenciar que a trajetória desses agentes opera como uma mediação simbólica, configurando narrativas de competência e legitimidade que moldam a percepção dos diferentes públicos envolvidos.
Esses processos interpretativos articulam-se, por sua vez, a dinâmicas globais de visibilidade e comunicação, descritas por Castells (2009), nas quais a projeção internacional de treinadores argentinos converge para formas indiretas de soft power. Ainda que nem o Estado argentino nem a Associação de Futebol da Argentina operem, de modo sistemático, estratégias diplomáticas orientadas ao uso de treinadores como instrumentos de influência, a circulação desses profissionais gera efeitos concretos sobre a imagem internacional do país. A expertise exportada, a reputação consolidada e os resultados obtidos funcionam como ativos simbólicos capazes de reforçar a atratividade da tradição futebolística argentina no cenário global.
Isso se torna ainda mais evidente quando analisado sob a perspectiva da glocalização esportiva (Giulianotti & Robertson, 2007), na qual elementos da “escola argentina” são reinterpretados e reterritorializados em países tão diversos quanto Colômbia, Paraguai, Peru, Chile, Arábia Saudita ou Egito. Nessas interações, o treinador argentino atua simultaneamente como agente local e global, traduzindo métodos, adaptando filosofias e reformulando traços identitários do jogo de acordo com o contexto sociocultural de destino. Essa circulação, sempre híbrida, sempre interpretativa, amplia ainda mais seu capital simbólico e, com ele, o alcance internacional do futebol argentino.
Assim, a articulação entre migração qualificada, soft power e capital simbólico mostra-se não apenas possível, mas necessária para compreender a centralidade dos treinadores argentinos nas dinâmicas contemporâneas do esporte global. Seu papel transcende a função técnica: trata-se de agentes culturais cuja presença, atuação e reconhecimento contribuem para projetar sentidos coletivos, legitimar tradições nacionais e produzir formas sutis, porém eficazes, de influência simbólica no sistema esportivo internacional.
Em síntese, o presente artigo demonstra que a atuação internacional de treinadores argentinos de futebol pode ser compreendida não apenas como um caso de migração laboral altamente qualificada, mas também como um mecanismo de produção e difusão de capital simbólico, evidenciando-se que esses profissionais operam como agentes de circulação de saberes, estilos de jogo e formas de autoridade técnica. Do ponto de vista teórico, a principal contribuição do estudo reside na articulação entre os conceitos de migração laboral qualificada, soft power e capital simbólico. Essa abordagem permite compreender o soft power como produção de consenso e direção cultural, ao mesmo tempo em que reposiciona o capital simbólico como elemento constitutivo de dinâmicas hegemônicas no campo esportivo. Consequentemente, o artigo contribui para aproximar a sociologia do esporte dos debates mais amplos das relações internacionais e da ciência política.
Por fim, esta pesquisa evidencia que o campo esportivo configura um terreno fértil para aprofundar investigações sobre circulação transnacional de saberes, diplomacias informais e produção de diferenças culturais, como por exemplo análises comparativas com técnicos de outras nacionalidades, estudos empíricos através de entrevistas com estes profissionais qualificados ou investigações com foco em gênero e raça, por exemplo. Ao iluminar o caso dos treinadores argentinos, abre-se espaço para novos estudos que articulem hermenêutica, sociologia do esporte, teoria das migrações e relações internacionais, revelando que o futebol, longe de ser apenas um jogo, constitui um laboratório privilegiado para compreender as forças simbólicas que moldam o mundo contemporâneo.
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Notas
*
Artículo de reflexión
Autor notes
a Autor de correspondencia. Correo electrónico: guilhermespfreitas@alumni.usp.br
Informação adicional
Cómo citar: Pires de Freitas, G. S. y Bettine de
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