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CHAMADA PARA ARTIGOS
Indisciplinas feministas em Abya Yala: artes e músicas desde as margens
Editora convidada: Alejandra Quintana MartínezDATA LIMITE: 22 de julho de 2026
As artes e músicas em Abya Yala constituem espaços onde memórias, saberes e tensões históricas convergem revelando uma pluralidade viva e em constante transformação, longe de serem homogêneas. Neste contexto, o termo Abya Yala, na língua kuna dos povos indígenas do Panamá e da Colômbia, refere-se ao continente que hoje conhecemos como América Latina e alude a um território em plena maturidade, vivo ou florescente. Esse nome destaca a vitalidade das suas terras, a profundeza histórica e a continuidade dos saberes originários, e tem sido reivindicado como símbolo de resistência e afirmação de identidade diante das estruturas impostas pela colonização.
Usamos o termo América Latina de maneira crítica, conscientes de que a sua origem colonial e patriarcal visou consolidar a hegemonia europeia e reduzir a diversidade dos povos originários, indígenas e afrodescendentes a um quadro cultural uniforme. Portanto, não reflete plenamente a complexidade histórica, linguística, espiritual e política dos ambientes daqueles que os habitam.
Diversas pensadoras, artistas e movimentos feministas, indígenas e afrodescendentes têm destacado a importância de nomear e habitar os territórios desde essas perspectivas, reconhecendo as memórias vivas, práticas culturais e modos de criação que emergem das margens, como atos de resistência e reexistência. Silvia Rivera Cusicanqui (2018) aponta que “as ciências sociais do continente ainda têm um viés eurocêntrico e colonizado”, e observa que amplos setores sociais refletem “da geografia […], do feminismo e da arte, de uma preocupação com a terra” (23), articulando nas suas práticas ligações entre ecologia, saberes indígenas e justiça social. Esses olhares críticos não apenas questionam as hierarquias do conhecimento ocidental, mas propõem também formas de pensar, criar e agir mais abrangentes e contextualizadas; bem como destacam a importância das artes e músicas na construção de paz, ligando a criatividade e a expressão cultural com processos de reconciliação, memória histórica e transformação social, em contextos de conflito e pós-conflito.
Dentro em uma trama heterogênea, marcada por colonialidades persistentes, radicalizações, desigualdades de gênero, hierarquias epistêmicas e fronteiras linguísticas, os feminismos, no plural, desempenham um papel transformador fundamental. Desde o teórico, político e acadêmico, ampliaram e renovaram a nossa compreensão do poder, as relações sociais e as formas de conhecimento e expressão. Ao desvendar experiências historicamente silenciadas e questionar hierarquias, articulam propostas para repensar e recriar desde a diversidade dos corpos, identidades, espaços e epistemologias. Como aponta Andrea Giunta (2021), a arte feminista coloca em crise os parâmetros patriarcais e configura-se como projeto coletivo que reescreve estórias anteriormente silenciadas: “Racista, classista e geograficamente excludente, o sistema da arte é mesmo sexista e heteronormativo” (66). Giunta também lembra-nos que, na região, as artes feministas sempre dialogaram com contextos políticos, como ditaduras, movimentos de libertação e diversas formas de resistência e organização social comunitária. Criar, preservar e disseminar essas genealogias por meio das artes e as músicas é uma das formas mais sugestivas de exploração e expressão das indisciplinas feministas, refletida num caleidoscópio de práticas sonoras, visuais e cénicas que permitem narrar, ressignificar e compartilhar experiências desde cenários e corpos diversos.
O feminismo comunitário de Julieta Paredes enlaça esses debates com uma militância situada na corporeidade indígena. Na sua performance Hilando fino (Tecendo Fios Finos), enfatiza como se vestir de chola torna visíveis as mulheres como sujetxs políticxs; ela própria afirma que “ninguém olha para mim quando vestida de chola: a gente se torna invisível”, com o que denuncia os preconceitos acreditando que “as cholas não tem corpo, não tem sexualidade, nem tem ideias” (New York Universit 2010, 15:44-17:00). Este exemplo mostra como práticas culturais e comunitárias podem se tornar em espaços para visibilizar saberes, estórias e experiências historicamente desiguais. Dessa forma, iniciativas culturais e artísticas aparecem como ferramentas para promover diálogos mais equitativos, inclusivos e respeitosos das identidades e experiências diversas.
Num contexto mais amplo da Abya Yala (América Latina), essas práticas artísticas e musicais funcionam igualmente como espaços de resistência e criação situada, visibilizam experiências historicamente subalternizadas e articulam lutas por reconhecimento. Abordagens interseccionais desafiam hierarquias de gênero, raça, classe e colonialidade, ao tempo que abrem novas genealogias, sensibilidades e formas de conhecer, historiar (ou deshistoriar), e criar nas artes e músicas. Mara Viveros Vigoya (2023) estuda, por exemplo, como as “marcações sociais” de raça, gênero e classe inscrevem-se nos corpos e condicionam suas possibilidades de ação. Rita Laura Segato (2023) sublinha que as violências de gênero são tecnologias de poder arraigadas na colonialidade moderna. Mercedes Liska (2024) analisa as tensões entre prazer, espetáculo e política nas músicas populares e ativismos Queer e feministas, bem como coloca de qual maneira as práticas de dança sexualizadas por mulheres podem se re-significar como emancipação corporal.
A fim de visibilizar e valorizar as múltiplas expressões de mulheres criadoras, este dossiê reúne trabalhos que explorem práticas artísticas em sua diversidade e mostrem como suas estórias e experiencias (individuais, coletivas ou comunitárias) geram formas alternativas de sensibilidade, memória e pensamento. Mesmo assim, procura-se dar espaço a criadoras históricas e àquelas que ainda não foram suficientemente estudadas, nomeadas ou reconhecidas, para recuperar trajetórias ocultas e ampliar os horizontes da pesquisa.
Abordagens feministas, transfeministas e interseccionais revelam como as criadoras (situadas em diferentes categorias sociais, étnicas, raciais, territoriais, neurodiversas, de gênero e sexualidade) reconfiguram linguagens, corpos e modos de fazer artes e músicas, seja por médio da experimentação contemporânea, cenas populares, práticas comunitárias, tradição oral, ativismos ou estéticas insurgentes. Convidamos a submissão de contribuições que abordem as artes e as músicas desde posições feministas, críticas e situadas, construídas desde contextos históricos, territoriais e afetivos concretos, não desde supostas neutralidades. Buscamos propostas que articulem arquivo, experiência e corpo como campos de produção política; análise que destaquem práticas ligadas à construção de paz e memórias que tem permanecido nas sombras; relatos que falem desde as margens e suas trajetórias diversas, e diálogos que conectem estéticas, práticas sonoras e projetos coletivos ou comunitários. Procuramos trabalhos que abracem as indisciplinas feministas como prática teórica, metodológica e política: pesquisas e criações que questionem as estruturas estabelecidas, desafiem as categorias hegemônicas, expandam as fronteiras disciplinares e contribuam para transformar as formas de compreender e narrar as artes e as músicas na região.
Para orientar a submissão de trabalhos, propomos uma série de eixos temáticos que não visam limitar as contribuições, senão abrir um campo de discussão amplio e crítico. Estes eixos articulam as indisciplinas feministas como horizonte teórico, metodológico e político para analisar e criar nas artes e as músicas. Podem se inscrever propostas em um ou mais desses eixos, ou se apresentar aproximações que explorem as interseções ou tensões:
- Colonialidade, racialização e feminismos: Perspectivas que analisam como é que as hierarquias coloniais, raciais e de gênero operam nos campos artísticos e sonoros, e de qual maneira são desafiadas e ressignificadas por criadoras diversas.
- Corpos, territórios e práticas criativas situadas: Aproximações que exploram as relações entre corporeidade, território, memória e criação, incluindo experiências neurodiversas e formas não lineares de percepção e conhecimento, reconhecendo modos de habitar e criar desde a diversidade de corpos, territórios e subjetividades.
- Genealogias invisibilizadas e arquivos feministas: Iniciativas que resgatam criadoras históricas, trajetórias pouco documentadas ou ocultas; que propõem arquivos críticos, alternativos ou comunitários e visibilizam a construção de memória e legados feministas.
- Indisciplinas metodológicas e experimentações feministas: Propostas que questionem os cânones estabelecidos e as fronteiras disciplinarias; explorem métodos, formatos e linguagens alternativos para pesquisar, criar ou teorizar desde enfoques feministas, situados e críticos, e incluam experiências neurodiversas que reconfiguram formas de conhecimento e práticas artísticas.
- Práticas e cenas não hegemônicas: Projetos que dão visibilidade às artes e músicas fora dos centros legitimados incluindo estéticas insurgentes, sonoridades comunitárias e ativismos e que destacam a inovação estética e a presença de práticas historicamente marginadas.
- Arte, política e ação coletiva: Experiências que evidenciam como as artes e músicas contribuem a lutas feministas, antirracistas, comunitárias ou territoriais que funcionam como ferramentas de organização, resistência, transformação social ou construção de paz.
- Tecnologia, mídia e produção cultural: Análise sobre acesso, mediações técnicas, circulação, indústria cultural e economias criativas desde um olhar feminista crítico, incluindo as possibilidades e limites que as tecnologias digitais oferecem ou restringem para quem cria.
Referencias
Giunta, Andrea. 2021. Feminismo y arte latinoamericano: Historias de artistas que emanciparon el cuerpo. Buenos Aires: Siglo XXI.
Liska, Mercedes. 2024. Mi culo es mío: Mujeres que bailan como se les canta. Buenos Aires: Gourmet Musical.
New York University. 2010. “Hilando fino desde el feminismo comunitario”. https://www.youtube.com/watch?v=MVGZdRwDZ6c.
Rivera Cusicanqui, Silvia. 2018. Ch’ixinakax utxiwa: Ensayos sobre pensamiento crítico, memoria y sociología de los pueblos indígenas. Buenos Aires: Tinta Limón.
Segato, Rita Laura. 2023. La guerra contra las mujeres. 4.ª ed. Buenos Aires: Prometeo.
Viveros Vigoya, Mara. 2023. Interseccionalidad, giro decolonial y comunitario. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.
*Feminista-artivista, possui mestrado em Estudos de Gênero (Universidade Nacional da Colômbia), mestra em Música com ênfase em História (Pontifícia Universidade Javeriana) e graduação em Publicidade (Universidade Jorge Tadeo Lozano). Sua trajetória indisciplinar abrange pesquisa, docência, composição, paródia musical, produção audiovisual, radiodifusão e consultoria em abordagens de gênero, interseccionalidade e construção de paz.
Ela dirigiu a linha estratégica Equidade para a Paz na ONG Aliança para a Paz (APAZ), liderando projetos como a Iniciativa Nacional de Equidade para Mulheres nos Setores Rurais (INÉS) (2020-2022); “Comunicação para a incidência política e a prevenção de estigmatização de mulheres líderes e defensoras de direitos humanos” com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (2022-2023), e “ACORDES pela Paz: Enfoque de gênero para a paz e a reconciliação na formação musical com crianças e adolescentes” (2022-2024), em colaboração com a Fundação Batuta e a Fundação Kofi Annan da Suíça.
Sua produção acadêmica inclui artigos como Igualdade de gênero nas novas músicas colombianas (2021), Sua vida é mesmo o meu país: Sexualidades dissonantes e escapadas de gênero em Liliana Felipe e Jesusa Rodríguez (coautoria com Camila Esguerra Muelle, 2018) e Festivais de gaitas e tambores em Ovejas e San Jacinto: Uma tradição de exclusão para as mulheres” (2009); o documentário Por quê é que as aves cantam: Mulheres, música e conflito armado (coautoria com Adrián Villa Dávila, 2015); e o livro Mulheres na música na Colômbia: O gênero dos gêneros (coautoria com Carmen Millán de Benavides, 2012). Conduziu também a pesquisa Perspectiva de gênero no Plano Nacional de Música para a Convivência (com o Ministério da Cultura da Colômbia, 2008).
Leciona no Departamento de Música da Pontifícia Universidade Javeriana, onde ministra o curso Mulheres, Música e Gênero desde 2008, bem como a cátedra recém-lançada Arte, Sexualidade e Gênero, com colegas de artes visuais e cénicas.
Todo dezembro ela recria a sua parodia da Novena feminista, generista e anticlerical, uma tradição que mantém há vinte anos.
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